segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Princípios fundamentais da educação em Rousseau

Aline Sarmento Coura
Universidade  Federal de Campina Grande

Rousseau, um dos mais bem conceituados pensadores do Século XVIII, na sua obra Emílio ou da Educação, propõe um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade, apresentando-nos os princípios gerais para uma educação de qualidade. A sua influência, no campo educacional, deve-se assim a esta obra. Nela, trata da educação de uma criança acompanhada de um preceptor que a auxiliará a ter uma educação conforme a natureza, preservando-a da sociedade corruptora. Pois o autor preconiza uma educação afastada do artificialismo das convenções sociais.
A proposta de Rousseau, de uma educação de acordo com a natureza, foi considerada inovadora e revolucionária, pois ele se opõe a educação do seu tempo e a formação humana em geral proposta pela educação de sua época. Dessa forma, apresenta uma proposta que valoriza a liberdade, bem como o desenvolvimento das faculdades das crianças. Deste modo, preconizando a educação conforme a natureza, Rousseau quer que o homem seja educado para si mesmo. Assim ver-se-á necessidade de se repensar a educação, considerando para tanto uma nova forma de compreender a infância, a adolescência e a fase adulta. A partir disto chega-se aos diferentes modos de educar segundo as diferentes etapas de formação humana, conforme o proposto por Rousseau.
A primeira destas etapas é a infância que, para Rousseau, é o período no qual acontece o desenvolvimento físico do ser humano. Assim sendo, é neste período em que as faculdades naturas do indivíduo humano se desenvolverão, constituindo-se, pois, a sua primeira formação.
A criança precisa de liberdade para viver e aproveitar cada fase da sua vida em seu devido tempo e não ser considerada um adulto em miniatura. Rousseau afasta a possibilidade da criança ser confundida com o adulto, e enfatiza a necessidade dela ser tratada de fato como criança, quando afirma: “amai a infância, favorecei as brincadeiras, seus prazeres, seu amável instinto” (ROUSSEAU, 2004, p.72). Isto por ser a infância um período curto que não volta mais. Faz-se, então, necessário deixar que a criança goze desse tempo valioso, porque, nesta idade, o sorriso está sempre nos lábios e não se deve impor a vontade de um adulto sobre ela, já que a mesma tem maneiras próprias de agir.
Assim, é preciso pensar seriamente no significado da infância, para que se proporcione uma educação cujo processo será determinado pela natureza, dando atenção às diversas fases do seu desenvolvimento. Pois não devemos impor os saberes dos homens à criança; é preciso considerar cada um em seu lugar, ou seja, considerar o homem no homem e a criança na criança, sabendo-se que ambos são diferentes e têm suas próprias características.
Seguindo esta linha de entendimento, compreendemos que a educação é um processo natural e não artificial. Portanto, a educação deve ser efetivada a partir do momento que se respeite o desenvolvimento natural da criança e não forçá-la a aprender coisas de adulto com uma educação bárbara voltada para um futuro incerto, deixando assim de viver o presente. Ao invés disto, dar-se-á mais ênfase a uma educação de acordo com a natureza e que valorize o presente. Isso nos diz Rousseau, quando nos chama a atenção para o seguinte: “Que mania a de um ser tão passageiro como o homem sempre olhar para longe, num futuro que vem tão raramente, e desdenhar o presente de que tem certeza!” (ROUSSEAU, 2004, p.78). Partindo disso, entende-se que o homem deve valorizar o presente e não viver sempre em busca de um futuro incerto, tornando-se tão longe de si mesmo, conduzido por desejos supérfluos, isto é, necessidades imaginárias que farão o homem infeliz, não mantendo ele o equilíbrio entre os seus desejos e suas capacidades de realizá-los.
De acordo com o exposto acima, Rousseau nos diz o seguinte: “É na desproporção entre os nossos desejos e nossas faculdades que consiste a nossa miséria. Um ser sensível cujas faculdades igualassem os desejos seria um ser absolutamente feliz” (Rousseau, 2004, p.74). Pois a felicidade consiste no uso de sua liberdade e será feliz quanto mais puder fazer o que necessita, não adquirindo excesso de desejos sobre suas faculdades. Ou seja, quanto mais o homem permanece perto de sua condição natural mais se distancia dos desejos supérfluos que os torna infeliz, por causar um desequilíbrio entre a potência e a vontade.
É indispensável conservar a criança, ao máximo possível, numa educação de acordo com a natureza e assim deixá-la viver o presente, evitando os vícios e os erros para que, ao chegar aos doze anos, o seu entendimento em relação à razão seja sem preconceitos e sem vícios. Assim o seu caráter se desenvolverá em liberdade, aproveitando cada minuto desse tempo valiosíssimo. Pois, de acordo com Rousseau (2004, p.97) “A primeira educação deve ser previamente negativa. Consiste não em ensinar as virtudes ou a verdade, mas em proteger o coração contra o vício e o espírito contra o erro”. Por isso deve-se preparar a criança desde os primeiros anos, para que seus primeiros olhares sejam impressionados com objetos que lhe convém, e não gerar os erros e vícios. Pois a educação moral deve ser conseqüência natural do desenvolvimento da criança.
É importante ressaltar que as lições devem consistir mais em atos do que em palavras. Não se deve aplicar às crianças o castigo como castigo, mas devemos fazer com que sintam as conseqüências naturais de sua má ação. Diante de tal contexto, Rousseau afirma que “O primeiro de todos os bens não é a autoridade, mas a liberdade. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada” (ROUSSEAU, 2004, P.81). Portanto, um homem livre é um homem que tem autonomia em suas decisões, e não necessita de outras pessoas para fazer as coisas no seu lugar. Pois a felicidade consiste no uso de sua liberdade, será feliz quanto mais poder fazer o que necessita. E assim aprende pelos seus atos e não porque alguém o obriga a fazer. Com isso, tornará as crianças mais livres e menos dependentes dos adultos. Assim, elas se acostumam desde cedo a pôr sob a dependência seus desejos e suas forças.
É necessário educarmos o homem desde o nascimento, para que lhe seja garantida a preservação de todas suas inclinações naturais, até que construa a sua formação física e moral durante a infância e a adolescência, quando passa a adquirir as qualidades que permitem inserir-se na sociedade, abrindo espaço para a construção da sua cidadania.
A adolescência, conforme Rousseau, é um período de modificações, um novo nascimento que remete o indivíduo a um processo de aprendizagem em direção a autonomia da vida adulta.
No período que vai dos doze aos treze anos, próximo à adolescência, a criança, por não ter todas as suas necessidades desenvolvidas, as suas forças são superiores. Pois, “aos doze ou treze anos, as forças da criança desenvolvem-se bem mais rapidamente do que suas necessidades” (ROUSSEAU, 2004, p.211). Neste período, o progresso da força ultrapassa o das necessidades. Assim, podendo mais do que deseja, será um ser muito forte.
De acordo com Rousseau, a fraqueza do homem decorre da desigualdade existente entre a sua força e seus desejos. Nesse sentido, entende-se que, se diminuirmos os desejos, teremos capacidades suficientes para satisfazer o que nos é necessário, como também seremos felizes. Pois são as necessidades imaginárias que tornam o homem infeliz.
É importante mencionar que as paixões, que dominam e destroem o homem, não provem da natureza; o indivíduo é quem se apropria delas, tornando-se, assim, infeliz, pois a única que nasce com o homem é o amor de si, as outras são modificações. Nesse sentido, Rousseau afirma: “Fiz ver que a única paixão que nasce com o homem, o saber, o amor de si, é uma paixão em si mesma indiferente ao bem e ao mal, que se torna boa ou má a não ser por acidente e segundo as circunstâncias nas quais se desenvolve”. (ROUSSEAU in FORTES, 1989, p. 12). Pensando assim, compreendemos que, na natureza, tudo é correto: o homem é quem modifica tudo. Pois a fonte de nossas paixões é natural; as outras são modificações que se aglutinam a esta fonte natural.
A educação de quinze a vinte anos, ou melhor, a adolescência é o período em que se educa o coração para a vida em comum e para as relações sociais. Neste período, deve-se encontrar meios de satisfazer o indivíduo, colocando-o ao seu alcance o que ele deve aprender para aquisição de sua formação moral, o que preparará para a vida adulta. Pois é o período de preparar o indivíduo moralmente para as suas relações com a humanidade. Partindo disso, é fundamental mencionar a importância do princípio da utilidade, conforme nos diz o próprio Rousseau (2004, p. 234):
Assim que chegamos a dar ao nosso aluno uma idéia da palavra útil, temos mais um grande meio para educá-lo, pois essa palavra o impressiona muito, dado que tem para ele apenas um sentido relativo à sua idade e que ele vê claramente a sua relação com o seu bem-estar atual.
Pensando assim, cabe ao preceptor colocar ao alcance do aluno o que ele deve aprender e fornecer meios de satisfazê-lo; como também é papel do educando procurar desejar e encontrar o que lhe é útil e conseguir conhecer a si mesmo para compreender em que consiste o seu bem-estar.
O ser humano deve formar sua personalidade de forma a ser um homem natural que se satisfaz, tendo assim opinião própria e buscando se conhecer cada vez mais e não satisfazer apenas as outras pessoas. Pois o período que constitui a adolescência é um estado turbulento de mudanças.
A adolescência é o período em que surgem as primeiras manifestações da consciência e dos primeiros sentimentos de amor e ódio, como também é o período da educação religiosa, que, segundo Rousseau, não deve ser imposta ao individuo, isto é, não deve ser imposta a religião que ele deve seguir, mas o que se deve fazer é colocá-lo em condições de escolher a sua própria religião e que, na sua escolha, seja conduzido pelo melhor emprego da razão. Assim terá autonomia para escolher, princípio fundamental para que, ao chegar à fase adulta, possa fazer as suas próprias escolhas. 
A última etapa da formação humana é a fase adulta. Nesta, segundo Rousseau, se efetiva a educação do ser moral e, na qual, se dá o direcionamento do indivíduo à vida sócio e política do Estado.
Assim, na fase adulta, a educação está voltada mais para a formação intelectual, estética e moral, como também é importante ter conservado os bons hábitos da infância. A esse respeito, Rousseau (2004, p. 636) diz o seguinte: “Se quiserdes prolongar pela vida inteira o feito de uma boa educação, conservai ao longo da juventude os bons hábitos da infância, e, quando nosso aluno for o que deve ser, fazei com que seja o mesmo em todos os tempos; eis a ultima perfeição que vos está dar à vossa obra”. Portanto, para se alcançar uma boa educação, faz-se necessário preservar os hábitos da infância, pois não é porque se tornou adulto que excluirá estes hábitos de quando criança; ao contrário, deve-se mantê-los.
Para Rousseau, é também na fase adulta que se enfatizam as diferenças entre o homem e a mulher. Estas diferenças, segundo ele,  pertencem ao sexo. Pois considera que, de acordo com a lei da natureza, a mulher foi feita para agradar ao homem e que ela deve ser conforme a constituição de sua espécie e de seu sexo, ou seja, deve usufruir os seus direitos e não se apossar dos direitos dos homens. A esse respeito, Rousseau afirma que “A mulher vale mais como mulher e menos como homem; em toda parte onde faz valer seus direitos, leva vantagem, em toda parte onde quer usurpar os nossos, permanece inferior a nós”. (ROUSSEAU, 2004, p. 525). Com isso, compreendemos que a mulher deve cultivar suas qualidades, pois terá mais vantagens do que se apropriar das qualidades dos homens, como também ocupará o seu lugar na ordem física e moral.
Mas, independentemente do sexo, é importante desenvolver bem a razão para que o indivíduo possa ter suas próprias opiniões, decidindo por si mesmo o que é melhor para si próprio, pois, até a idade em que a razão não está formada, o que é bom ou mal é decidido pelas pessoas que o rodeiam. Por isso, faz-se necessário proporcionar uma educação que, o ser humano, ao ser educado intelectualmente, não seja persuadido pelas pessoas que querem impor à forma dele se comportar. Com isso observamos a importância de educar o homem conforme a natureza, para que ele tenha a educação que lhe convém.
Assim, o indivíduo, nesta fase adulta, deve estar preparado para cumprir as suas funções de homem, ou melhor, ser capaz de viver em liberdade, sem que fique dependente dos homens, comprometendo sua felicidade.

Mulheres: tempos diferentes, discursos iguais 

– A luta continua por uma vida mais justa e digna para todas/todos

 
“Os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras. Os Deuses a puseram nos serviços caseiros, porque elas suportam menos bem o frio, o calor e a guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que vagueiam pelas ruas são desonestas”. (Xenofonte: 427 –355 a.C.)
 
Neste mês de março comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e com este texto busca-se fazer uma breve reflexão sobre os discursos que circulavam (circulam) na nossa sociedade sobre elas, desde o período de 400 a.C. até os dias atuais.
Platão, um filósofo que viveu entre 427-347 a. C., preocupou-se em explicar as questões da origem do homen. “Entre os homens que receberam a existência, todos os que se mostraram cobardes e passaram a sua vida a praticar o mal foram, conforme toda a verossimilhança, transformados em mulheres na segunda encarnação, (Platão, 1986:154)”. Segundo este filósofo, os homens que se enveredaram para caminhos errantes que, os distanciavam da constituição de uma ética de vida e não conseguiam o acesso ao mundo do conhecimento intelectual, teriam uma segunda chance sendo mulheres. Enfim, este autor considerava as mulheres como a reencarnação destes homens que fracassaram na sua primeira vida. É preciso considerar que seu pensamento é coerente à estrutura social das polis gregas cuja, base era patriarcal e práticas homoeróticas entre o sexo masculino eram comuns e consideradas “normais”.[1] Na chamada democracia de Atenas, demiurgos (estrangeiros), mulheres e escravos, a maioria da população, não votavam nem tinham direito de participar das decisões públicas.
A mulher ocidental, durante longos séculos, foi proibida de trabalhar, estudar, sair à rua sem a anuência do seu dono, pai ou marido. Ela era tratada como propriedade, objeto, em virtude dos discursos opressionistas que buscavam, através das diferenças biológicas entre homens e mulheres, explicar as desigualdades de direitos.
No livro Escola de Mulheres, do século XVII, o diálogo entre Arnolfo e Crisaldo retrata como deveria ser a mulher ideal, (Molière,1996:10).
Arnolfo – Caso com uma tola para não bancar o tolo.(... ) Uma mulher esperta é mau presságio; eu sei o quanto custou a alguns casarem com mulheres cheias de talentos; me caso com uma intelectual, (...) e fico apenas sendo marido de madame.(... ) Mulher que escreve sabe mais do que é preciso. Pretendo que a minha seja bastante opaca para não saber nem o que é uma rima. (...) Em suma, desejo uma mulher de extrema ignorância. Que já seja demais ela saber rezar, me amar, cozer, bordar!
Neste diálogo, constata-se que o homem possuía receio em casar-se com uma mulher que soubesse mais ou tanto quanto ele. É possível constatar ainda, num diálogo entre Arnolfo e a sua futura esposa Inês, como a mulher era representada nos discursos da época, quais eram as suas obrigações e que posição ela ocupava no casamento:
Arnolfo: vou me casar com você Inês; cem vezes por dia você deverá agradecer esta honra bendita (...). Seu sexo nasceu para dependência. A onipotência é para quem tem barba! (Molière,1996:41).
O filósofo Rousseau, que viveu entre 1712 até 1778, dizia que a mulher só deveria cultivar a razão, se essa faculdade pudesse lhe garantir o cumprimento de seus deveres considerados como “naturais”, ou seja, obedecer e ser fiel ao marido e cuidar dos filhos e da casa. Segundo esse autor, a mulher que ousasse se dedicar à vida intelectual deveria permanecer solteira. Ela iria contra a sua natureza, contra os seus deveres de esposa, como podemos observar, (ROUSSEAU, 1968: 490).
Mas eu ainda prefiro cem vezes mais uma jovem simples e grosseiramente educada, a uma jovem culta e enfatuada, que viesse estabelecer no lar um tribunal de literatura de que seria presidenta. Todas essas mulheres de grandes talentos aos tolos impressionam. Toda jovem letrada permanecerá solteira a vida inteira, em só havendo homens sensatos na terra.
Um outro exemplo de opressão feminina aparece com evidência por volta de 1920, no livro O status intelectual da mulher, de Virgínia Woolf, em que a escritora inglesa mostra como as mulheres são impedidas de se desenvolverem intelectualmente na sociedade, (WOOLF, 1997: 36).
É preciso que as mulheres tenham liberdade de experimentar, que possam ser diferentes dos homens, sem medo, e que expressem estas diferenças livremente; que toda a atividade intelectual seja bastante estimulada de forma que sempre haja um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem tão livremente quanto aos homens, e com tão pouco medo do ridículo ou de condescendência. Estas condições, a meu ver de grande importância, são impedidas (...), pois um homem ainda tem mais facilidade que as mulheres para tornar seus pontos de vista conhecidos e respeitados.
Discursos sobre a necessidade de manter as mulheres na ignorância circularam durante longos períodos. Esses discursos dificultavam à conquista dos direitos das mulheres à educação e à profissionalização. Acreditava-se que, quanto menos as mulheres soubessem, melhores esposas seriam. Tais discursos sobre as mulheres, sobre como elas deveriam se preparar para serem boas esposas, mães, implicavam na convenção de que não havia, para isso, a necessidade de muitos estudos.
Se o marido possuísse boas condições financeiras, a mulher não necessitava trabalhar, ter uma profissão para contribuir no orçamento familiar. Ainda hoje, o marido é considerado por alguns como o responsável pelo sustento do lar. Enfim, tempos diferentes e discursos iguais sobre a mulher. Segundo (COLLING, 2000: 49):
O discurso da inferioridade feminina estava tão arraigado na estrutura da vida das mulheres e dos homens que poucos o questionaram. A maioria das mulheres acomodavam-se na instituição familiar dominada pelos homens, que lhe garantiam subsistência, lhe ofereciam um companheiro para toda a vida e forneciam um sentimento de proteção frente ao cotidiano da vida. Vivendo para seus maridos, esquecidas, esqueciam de pensar sobre si mesmas.
Os discursos retratavam as mulheres como seres imperfeitos por natureza, seres inferiores aos homens e que, naturalmente, estariam destinadas a serem submissa a eles. A natureza feminina era considerada desde sempre como algo dado, mas segundo (HÉRITIER, 1996:282), “não existe instituição social que se baseie exclusivamente na natureza. Todas são um efeito da arte, da invenção dos grupos, nos limites, certamente, do fato biológico e natural”.
As ideologias positivistas e higienistas também preocupavam-se em manter a mulher no espaço doméstico e impor-lhe regras de conduta que regulavam seu comportamento, constituindo-a, assim, na esposa perfeita, submissa ao marido e, depois, aos filhos homens.
A mulher, até 1840, era considerada como “boneca”, “criança mimada”. Mais tarde, ela conquistou a posição de “pedestal”, passando a ocupar outros espaços além da cozinha. Com a passagem do arquétipo de “boneca”, para “anjo”, “rainha do lar”[2], a mulher começa a ser tratada com mais respeito e com direito à educação, para cumprir adequadamente com as obrigações de sua nova posição. Mesmo assim, a educação feminina ainda visava à formação da esposa agradável e da mãe competente.
Segundo (PERROT, 1988:186), “o século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços ao seu ponto mais alto. Seu racionalismo procurou definir estritamente o lugar de cada um”. À mulher era delegado o espaço da casa, da maternidade e do magistério. O homem assumia cargos de poder, como a política, a medicina etc. Nesse período, os homens ainda eram ensinados a olhar as suas mães e esposas como outras “Marias”, isto é, como “santas”.
Com o processo de urbanização e industrialização e a emergência de uma camada média detentora de uma cultura escolarizada, ampliaram-se as fronteiras para a profissionalização das mulheres, ensejando mudanças acerca do que a sociedade pensava sobre o papel destinado a elas. Essas múltiplas transformações sócio-econômicas ocorridas nos últimos séculos alargaram de forma notável a visibilidade da mulher. O aumento dos padrões industriais do mundo contemporâneo criou as condições propícias para a sua inserção no mundo do trabalho.
Passaram-se milênios, séculos, décadas desde o período da Antigüidade grega. Muitas mudanças, conquistas, rupturas aconteceram na sociedade, na vida das mulheres, durante esse longo período. Mas, ainda há concepções, há discursos que consideram a mulher como um ser inferior. Um fator que possibilita pensar nesta direção, é o alarmante índice de violência[3] contra as mulheres, principalmente no ambiente doméstico. Segundo os dados da ONU, em todo o mundo, pelo menos uma a cada três mulheres já foi espancada, coagida ao sexo ou sofreu alguma forma de discriminação durante a vida. Um outro fator, é que muitas mulheres ainda recebem um salário inferior em comparação aos homens que, desempenham a mesma função.
Neste mês de março, em especial, são realizadas palestras, conferências, protestos, demonstrações de luta por uma vida mais digna para todos os sexos, em vários países. E que estas manifestações, sirvam para fomentar a discussão e a conscientização de que, as políticas públicas são necessárias para a redução da desigualdade, da discriminação, da violência e da violação dos direitos humanos.

Bibliografia:
COLLING, Ana Maria. A construção da cidadania da Mulher Brasileira: a questão da igualdade e da diferença. PUC - RS. Porto Alegre, 2000, p. 49. (Tese de doutorado)
HÉRITIER, Françoise. Masculino/Femenino. El pensamiento de la diferencia. Barcelona: Ariel, 1996, p. 282.
Lei Maria da Penha: 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm .
MOLIÈRE. Escola de mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p.10.
PERROT,  Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.186.
PLATÃO. Diálogos: Timeu, Critias, o Segundo Alcebíades, Hipias Menor. Belém: UPPA/GEU, 1986, p. 154..
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. São Paulo: Difusão Européia do Livro,  1968, p. 490.
WOOLF, Virgínia. Kew gardens; O status intelectual da mulher; Um toque feminino na ficção; Profissões para mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.36.
__________
[1] Talvez a exceção seria Esparta, menos por causa do reconhecimento da igualdade de direitos entre os gêneros e mais em função de sua característica eminentemente militar. As espartanas podiam participar da vida pública em praticamente todas as esferas, inclusive no exército e na política.
[2] Rousseau, no seu Livro Quinto, em que aborda sobre Sofia ou a Mulher, inaugura o discurso da mulher como “anjo do lar”, “santa” descrevendo como deveria ser a relação entre o homem e a mulher, (ROUSSEAU, 1968:432), e WOOLF, aborda que a mulher precisa matar o “anjo do lar” para conquistar outros espaços, (WOOLF, 1997: 43).
[3] São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial, segundo a Lei Maria da Penha - 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm

domingo, 30 de janeiro de 2011

Emiliando Sofia

Letra da música. Paródia de Pato Pateta de Toquinho.

Lá vem emílio vivendo para brincar
E a sofia indo atrás a invejar.

Rousseau falava da liberdade
Como igualitária mas não é verdade.
O machismo impera ainda todo dia
E a sociedade só julga sofia.

E a religião, é certa?
Não, não
A consiência domina a razão.
Emílio deve ser livre pra escolha
Sofia deve viver numa bolha.

(Na bolha da religião, da submissão e da falta de razão)

Lá vem emílio, 15 anos a brincar
E a sofia ainda atrás a invejar...

Resumo da obra - "EMÍLIO OU DA EDUCAÇÃO"

Para demonstrar toda a sua teoria ele escreve um livro "Emílio ou o da educação" em que cria um aluno imaginário, sendo ele o Emílio, e no decorrer dos capítulos mostra como uma criança deveria ser educada.

Em sua teoria Rousseau alega que a criança deve ser criada no campo, distante das cidades para que assim ela não seja corrompida pelos vícios das mesmas. Ele afirma que a curiosidade e/ou desejo de aprender deve surgir da criança e não de seu tutor e pais, ou seja, ela demonstra qual o momento certo dela aprender determinadas coisas, não é a toa que Emílio, seu personagem, só sente vontade de aprender a ler e a escrever entre os 12 - 15 anos de idade. Emílio passa pelo seguinte processo de formação:

2 - 12 anos de idade : Idade da Natureza - vida no campo para se desenvolver: Educação Moral, a Educação do Corpo e a Educação Sensorial.
12 - 15 anos de idade : Idade da Força - desenvolve:
Educação Intelectual e a Educação Manual e Social.
15 - 20 anos de idade : Idade  da Razão e das Paixões - desenvolve:    Educação do ser social, a Educação Religiosa e Retomada Educação Moral
20 - 25 anos de idade : Idade da Sabedoria e do casamento.

A função do professor / tutor durante é a infância da criança é impedir que a mesma perverta o seu pensamento e fazer de tudo de maneira natural. Rousseau considera o período da infância o "sono" da razão, sendo que a razão só vira aparecer na fase da puberdade e na fase adulta. Apesar de aprender alguns princípios relacionados à razão durante este período a criança não faz o uso da mesma.

Contudo, Rousseau visava à formação do homem, e não somente do ser cidadão para conviver na sociedade capitalista como ocorre nos dias atuais, com isto uma pergunta surge é por este motivo então que a educação brasileira encontra-se defasada, isto esta se dando por conta dos objetivos que se quer atingir? Este pode ser um, dos diversos motivos para este problema, porém deve-se também levar em consideração a falta de investimento financeiro por conta do governo, o desinteresse por conta de alunos e professores, e diversos outros.

O Emílio de Rousseau

Paul Arbousse-Baside e Lourival Gomes Machado
O Emílio é um ensaio pedagógico sob a forma de romance e nele Rousseau procura traçar as linhas gerais que deveriam ser seguidas com o objetivo de fazer da criança um adulto bom. Mais exatamente, trata dos princípios para evitar que a criança se torne má, já que o pressuposto básico do autor é a crença na bondade natural do homem. Outro pressuposto de seu pensamento consiste em atribuir à civilização a responsabilidade pela origem do mal. Conseqüentemente, os objetivos da educação, para Rousseau, comportam dois aspectos: o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança e seu afastamento dos males sociais.
A educação deve ser progressiva, de tal forma que cada estágio do processo pedagógico seja adaptado às necessidades individuais do desenvolvimento. A primeira etapa deve ser inteiramente dedicada ao aperfeiçoamento dos órgãos dos sentidos, pois as necessidades iniciais da criança são principalmente físicas. Incapaz de abstrações, o educando deve ser orientado no sentido do conhecimento do mundo através do contato com as próprias coisas: os livros só podem fazer mal, com exceção do Robinson Crusoe, que relata as experiências de um homem livre, em contato com a natureza.
Liberta da tirania das opiniões humanas, a criança, por si mesma, e sem nenhum esforço especial, identifica-se com as necessidades de sua vida imediata e torna-se auto-suficiente. Vivendo fora do tempo, anda precisando das coisas artificiais e não encontrando qualquer desproporção entre desejo e capacidade, vontade e poder, sua existência vê-se livre de toda ansiedade com relação ao futuro e não é atormentada pelas preocupações que fazem o homem adulto civilizado viver fora de si mesmo.
É necessário, contudo, prepará-la para o futuro. Isso porque ela tem uma enorme potencialidade, não aproveitada imediatamente. A tarefa do educador consiste em reter pura e intacta essa energia até o momento propício. Nesse sentido, é particularmente importante evitar a excitação precoce da imaginação, porque esta pode tornar-se uma fonte de infelicidade futura. Outros cuidados devem ser tomados com o mesmo objetivo e todos eles podem ser alcançados ensinando-se a lição da utilidade das coisas, ou seja, desenvolvendo-se as faculdades da criança apenas naquilo que possa depois ser-lhe útil.
Até aqui, o processo educativo preconizado por Rousseau é negativo, limitando-se àquilo que não deve ser feito. A educação positiva deve iniciar-se quando a criança adquire consciência de suas relações com os semelhantes. Passa-se, assim, do terreno da pedagogia propriamente dita aos domínios da teoria da sociedade e da organização política.
in Os Pensadores: Rousseau, São Paulo: Ed. Abril, 1978, introd. pgs. XVII-XVIII.
Jean-Jacques Rousseau foi um importante filósofo, teórico político e escritor suíço. Nasceu em 28 de junho de 1712 na cidade de Genebra (Suíça) e morreu em 2 de julho de 1778 em Ermenoville (França). É considerado um dos principais filósofos do iluminismo, sendo que suas idéias influenciaram a Revolução Francesa (1789).
Rousseau não conheceu a mãe, pois ela morreu no momento do parto. Foi criado pelo pai, um relojoeiro, até os 10 anos de idade. Em 1722, outra tragédia familiar acontece na vida de Rousseau, a morte do pai. Na adolescência foi estudar numa rígida escola religiosa. Nesta época estudou muito e desenvolveu grande interesse pela leitura e música.
No final da adolescência foi morar em Paris e, na fase adulta, começou a ter contatos com a elite intelectual da cidade. Foi convidado por Diderot para escrever alguns verbetes para a Enciclopédia.

No ano de 1762, Rousseau começou a ser perseguido na França, pois suas obras foram consideradas uma afronta aos costumes morais e religiosos. Refugiou-se na cidade suíça de Neuchâtel. Em 1765, foi morar na Inglaterra a convide do filósofo David Hume.

De volta à França, Rousseau casou-se com Thérèse Levasseur, no ano de 1767.

Escreveu, além de estudos políticos, romances e ensaios sobre educação, religião e literatura. Sua obra principal é Do Contrato Social. Nesta obra, defende a idéia de que o ser humano nasce bom, porém a sociedade o conduz a degeneração. Afirma também que a sociedade funciona como um pacto social, onde os indivíduos, organizados em sociedade, concedem alguns direitos ao Estado em troca de proteção e organização.

Obras Principais:
- Discurso Sobre as Ciências e as Artes
- Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens
- Do Contrato Social
- Emílio, ou da Educação- Os Devaneios de um Caminhante Solitário

Frases de Jean Jacques Rousseau

- "O mais forte não é suficientemente forte se não conseguir transformar a sua força em direito e a obediência em dever"
- "Vosso filho nada deve obter porque pede, mas porque precisa, nem fazer nada por obediência, mas por necessidade"
- "A razão forma o ser humano, o sentimento o conduz."
- "O homem de bem é um atleta a quem dá prazer lutar nu." 
- "O maior passo em direção ao bem é não fazer o mal."
- "Bastará nunca sermos injustos para estarmos sempre inocentes?"
- "A paciência é muito amarga, mas seus frutos são doces." 
- "As boas ações elevam o espírito e predispõem-no a praticar outras". 
- "Quem enrubesce já é culpado; a verdadeira inocência não tem vergonha de nada." 
- "O ser humano verdadeiramente livre apenas quer o que pode e faz o que lhe agrada."
- "Para conhecer os homens é preciso vê-los atuar." 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

A educação de Sofia.

A Educação da Sofia de Rousseau e da Lotte de Goethe:
Pode o Romantismo Ser Reacionário?

Ana-Isabel Aliaga-Buchenau
O Romantismo é freqüentemente visto como rompimento com a ordem estabelecida, como mudança revolucionária do até então existente. Diz-se que ele se contrapõe às idéias postuladas por representantes do Iluminismo e Neo-classicismo(1). No mundo da pedagogia, a obra de Rousseau, Émile, constituiu-se numa espécie de revolução. Neste ensaio mostro que as noções de Rousseau são novas e inovadoras somente com referência à educação de meninos. Ao contrário, sua visão acerca de meninas e mulheres é bastante reacionária. Uma comparação entre Sofia, a menina em Émile de Rousseau, e Lotte, a heroína em The Sufferings of Young Werther de Goethe, apresenta semelhanças entre as duas jovens mulheres. Eu postulo que o Romantismo é basicamente reacionário, como pode ser visto nesta comparação.
As idéias de Rousseau são realmente revolucionárias quando comparadas à situação da educação das crianças e dos métodos educacionais do século XVIII, como descrito na seguinte citação:
“A prática em uso era [os bebês] serem cuidados por amas-de-leite...que freqüentemente negligenciavam-nos terrivelmente. Higiene, realmente não existia... tanto eles continuaram sendo protegidos de certos males como ar frio e exercícios, como eram espancados por desobediência...Se eles estivessem ou não felizes, era... extremamente irrelevante”(2).
Rousseau se opôs a cada aspecto dessa forma de educação, sugerindo a amamentação de bebês, roupas folgadas, aprendizagem pela experiência e, o mais importante, o objetivo de fazer as crianças felizes. Uma das mais revolucionárias contribuições de Rousseau é que ele vê as crianças como crianças, que acredita que elas são boas por natureza, e que a educação deveria ser “negativa”. Isto é, um educador deveria incrementar as boas inclinações de uma criança, não a instruindo e dirigindo diretamente, mas ajudando as boas coisas a emergirem. Em Émile, um tutor exemplar eleva a criança ideal, Emílio, à perfeição. Em vez de um modo mecanicista de educação, o tutor usa o “método negativo”. Além disso, ele tem a função de proteger a criança da influência da sociedade(3).
Então, e sobre as mulheres? Em Émile, Rousseau apresenta Sofia, a menina educada para se tornar a mulher perfeita como esposa de Emílio. Depois de estabelecer que as mulheres não são iguais aos homens ? a mulher “tem os mesmos órgãos, as mesmas necessidades,...[a mesma] máquina”(4), mas homens e mulheres “devem ser distintos em constituição e temperamento”(5)?, Rousseau esboça uma educação muito diferente para mulheres.
Aparentemente, a educação das mulheres parece ser baseada em um semelhante princípio “negativo”, como a educação masculina. De uma maneira “negativa”, Rousseau pretende que a inferioridade natural da mulher e suas tendências para ser conquistadora, astuta e apaixonada por natureza sejam respeitadas e conduzidas por caminhos desejáveis. Esse direcionamento já indica que o processo real de educação é muito mais positivo do que “negativo”: os professores “ensinam-na, limitam-na, educam-na, explicam para ela”(6). As meninas “deveriam ser acostumadas cedo à restrição”(7). Uma lição mais importante para as mulheres é aprender sobre seus deveres e, além disso, “a amar esses deveres”(8). Os deveres incluem tarefas domésticas, mas não necessariamente ler ou escrever numa idade muito prematura. A natureza doméstica da educação de mulheres enfatiza o papel de mãe e dona de casa. Além desse, o único dever que uma mulher tem é ser esposa.
Enquanto que Emílio (leia-se: um homem) é a representação do individualismo romântico e da liberdade em sociedade, as mulheres são criaturas dependentes. Elas dependem de suas famílias, seus maridos e da sociedade. Uma mulher tem que aprender a subserviência porque ela terá que “suportar injustiças até mesmo da... mão [de seu marido]”(9)  e qualquer desejo de liberdade, “somente multiplicaria o sofrimento da esposa e os maus tratos do marido”(10). Em contraste com Emílio e os homens, as mulheres não são livres na sociedade. Ao contrário, sua mais elevada meta deve ser a de preservar sua honra, algo que elas não podem fazer sozinhas porque “a honra da mulher não depende apenas de sua conduta, mas de sua reputação”(11).
Até mesmo no contexto de seu tempo, Rousseau surge como uma voz muito conservadora entre contemporâneos como Fénelon e Madame de Maintenon, que propagaram uma visão muito emancipada das mulheres(12). Embora alguns aspectos de seu tratamento às mulheres sejam obtidos a partir de trabalhos anteriores e reflitam atitudes reacionárias, Rousseau aponta para o futuro com sua representação da mulher perfeita e ideal, Sofia ? futura esposa de Emílio. Sofia é, em muitos aspectos, um protótipo da heroína romântica do início do século XIX, representada ali pela idealizada Lotte em The Sufferings of Young Werther, de Goethe. A surpreendente conclusão que precisa ser tirada dessa comparação é que alguns aspectos do Romantismo são muito reacionários, já que, como tem sido apontado, Sofia é retratada de igual modo e conduzida semelhantemente à heroína romântica Lotte(13).
Rousseau atribui muitas características à Sofia e às mulheres em geral, que são aquelas mais altamente apreciadas pelos românticos. As mulheres têm intuição, paixão e imaginação. Ao invés de razão, como Emílio, Sofia possui sensibilidade. Esta é exatamente a mudança entre a “Idade da Razão” e a “Idade da Sensibilidade”:
“Se não as paixões, em nosso sentido da palavra, pelo menos a sensibilidade vem substituir a razão como a pedra de toque da vida, quando a suscetibilidade emocional de um coração afável era apreciada mais altamente do que o estreito julgamento de uma cabeça fria”(14).
Na opinião de Rousseau, Sofia é “muito sensível”(15). Embora ele não aprecie ainda a sensibilidade, como mais tarde os românticos o farão, ele já atribui esta característica a Sofia. Lotte também é muito sensível, de tal modo que Werther vê seu futuro marido como impróprio para estar com ela uma vez que a este falta semelhante sensibilidade(16).
Uma característica semelhante a sensibilidade é a intuição. As mulheres, de acordo com Rousseau, vivem de intuição, e elas devem usá-la para “ter um completo conhecimento da mente dos homens”(17) e para “ler mais acuradamente o coração do homem”(18). Ler o coração ? um órgão que assume proeminência sem precedentes no pensamento romântico ? é uma capacidade que Sofia compartilha com a heroína romântica Lotte. Quando se torna claro como Werther está desesperadamente apaixonado, Lotte toma uma “firme resolução” de mantê-lo distante, mas não consegue dizer-lhe: “e se ela adiasse, então seria um sincero, amigável desejo de poupá-lo, porque ela sabia quanto isto custaria a ele, que seria sem dúvida quase impossível para ele”(19).
Além da intuição, a paixão é um outro aspecto de sensibilidade agora substituído pela razão e racionalidade. Ambas, Sofia e Lotte, têm paixão em grau elevado. De acordo com Rousseau, mulheres podem “apenas esconder a paixão que as devora”(20), o que ele vê como um fato que apóia sua demanda pela restrição exercida sobre as mulheres. Entretanto, quando Sofia é “devorada” pela paixão, ela não é reservada, mas ela se fixa em um herói imaginário e “[ama-o]”...com uma paixão que nada poderia curar”(21). Lotte é igualmente “perturbada”(22) por suas emoções e paixões, como Sofia. Tendo repelido os avanços de Werther por longo tempo, Lotte finalmente sucumbe a sua paixão: “Seu senso tornou-se confuso, ela apertou as mãos dele, apertou-as contra o seu peito”(23).
Ambas as mulheres reagem como qualquer romântico teria feito em face do impossível ou rejeitado amor. Quando Sofia é mal sucedida no amor com um herói imaginário, seu “temperamento” muda e ela se torna melancólica: quando Lotte percebe que não pode ter Werther, e que não quer ter mais ninguém, ela tem sentimentos semelhantes aos de Sofia: “seu espírito...sentiu o fardo de uma melancolia que sabe que o projeto de felicidade está fracassado”(24). A melancolia é outro aspecto da sensibilidade e um ideal no pensamento romântico.
Rousseau considera emoções, e derramamento de lágrimas em particular, em termos positivos. Igualmente, estas são as características mais idealizadas pelos românticos. Quando Emílio vem à casa de Sofia, ele ouve a história de Telêmaco e verte algumas lágrimas de emoção pelos protagonistas. Sofia, “vendo-o chorar, está pronta para misturar suas lágrimas com as dele”(25). A emoção vem da forte capacidade de empatia de Sofia e de Emílio. Ambos mostram o tipo de empatia mais tarde tão venerado pelos românticos. Lotte e Werther são muito parecidos em sua reação emocional diante de uma obra literária. Ambos choram ao ouvir Ossian, e perdem-se em lágrimas diante da simples invocação do nome de um poeta romântico alemão ? Klopstock(26). A literatura evoca lágrimas em ambas, Sofia e Lotte.
Mais notavelmente, elas assemelham-se mutuamente em suas capacidades imaginativas. Ambas as mulheres têm muita imaginação, estimuladas pela leitura literária. Rousseau apresenta-nos duas alternativas conclusivas para as poderosas façanhas imaginativas de Sofia. Ela aprendeu tanto sobre a virtude que o único homem que a atrai é “o herói imaginário” de sua leitura(27), Telêmaco. No final feliz de Rousseau, Sofia consegue transferir seu amor por Telêmaco para Emílio, o qual foi apreendido do próprio Telêmaco. Porém, na versão alternativa que ele somente expressa como um final possível, envolvida em sua fúria, Sofia é considerada louca, ela se torna uma proscrita, e finalmente morre por causa da força da sua imaginação. Esta Sofia é muito sensível e romântica, portanto, acaba morrendo.
Lotte também tem uma imaginação muito forte, que a leva a identificar-se com eventos descritos, por exemplo, em Ossian. Ao ouvir Werther ler para ela tal obra, ela começa a chorar. Ela pode então imaginar o que Werther estaria sofrendo e “uma premonição de sua terrível intenção pareceu-lhe perpassara alma”(28). Lotte é também muito “sensível e romântica”, como se pode notar quando Werther suicidou-se: “havia medos na vida de Lotte”(29).
As semelhanças entre Sofia e Lotte vão mais além do que as qualidades emocionais que elas compartilham. Elas são também, ambas, educadas para a mesma função futura ? a de mãe e esposa. Durante o século XVIII, não era incomum para as mulheres, ao menos nos centros urbanos, entregarem suas crianças para amas-de-leite. Ao mesmo tempo, romances extra-conjugais eram ocorrências bastante normais(30). Foi somente no final do século, com a ascensão do Romantismo, que a condição de mãe e esposa passou a ser idealizada para estimular as mulheres a verem nela maior importância(31). Rousseau é um defensor de tais noções românticas na medida em que vê a importância das crianças, a importância da maternidade e de ser uma esposa perfeita. Na sua descrição de Sofia, ele estabelece essas virtudes de mãe e de esposa, que se tornariam importantes durante o século XIX e que têm sido vistas como reacionárias pela crítica recente. As mulheres deveriam ser conduzidas e educadas para dois propósitos, como ditames da natureza. Elas existem para tornar-se mães, donas de casa e esposas.
Sofia é especificamente levada a preparar-se para as suas funções domésticas. Rousseau é combatido precisamente por defender esse “aprendizado doméstico” planejado para Sofia(32). Sofia aprende em idade muito tenra a costurar, uma atividade que corresponde à utilidade prática esperada da educação para meninas, já que ela precisará estar apta a fazer suas próprias roupas. Mais importante, ela estuda os “detalhes da administração doméstica; ela entende de cozinhar e limpar; ela sabe os preços da comida, e também como escolhê-la; ela pode fazer contas corretamente, ela é a governanta de sua mãe”(33). De fato, ela deve aprender matemática antes de ler e escrever, já que ela é mais importante para calcular um orçamento doméstico. Rousseau nega expressamente às mulheres qualquer outra forma de ocupação de lazer, tal como “escrever versos em sua mesa de toalete rodeada por folhetos de todo tipo e com notas sobre o papel pintado”(34). Essas são as atividades domésticas que fazem uma mulher valiosa aos olhos de um homem.
Novamente, Lotte é muito semelhante a Sofia, já que homens, quer Albert, Werther ou seu pai, apreciam-na por suas habilidades domésticas. O que estimula a fantasia de Werther sobre Lotte não é somente sua beleza aparente, mas, mais importante, sua habilidade doméstica: “segurando um pão de centeio e cortando para os pequenos à sua volta, corta-o em pedaços apropriados para suas idades e apetites”(35).
Tanto Sofia quanto Lotte devem executar deveres domésticos, cuidando da casa e da família. A mais importante função delas é a de mãe no lar. Como mãe, Sofia mantém uma família unida: “ela forma um laço entre pai e criança...Que cuidado amoroso é exigido para preservar uma família unida!”(36)
A idealização da maternidade é até mais forte no caso de Lotte, porque ela torna-se mãe prematuramente. Quando sua mãe morre, ela promete ser mãe para seus muitos irmãos com “coração de mãe e olhos de mãe” e com a “lealdade e a obediência de uma esposa” para consolar o pai(37). Como os homens na vida dela observam: Lotte “tem se tornado uma verdadeira mãe,... nenhum momento de seu tempo tem sido gasto sem ação amorosa, sem alguma labuta”(38).
Tanto Lotte quanto Sofia, devem tornar-se mães e donas de casa. A idealização da maternidade começou no final do século XVIII. A noção romântica da mãe ideal é tão forte que ainda existe hoje. Como o crítico Nancy Senior aponta, a noção de amor de uma mãe por suas crianças é um “conceito cultural”(39):
“Uma grande tentativa foi feita para persuadir as mães de que elas seriam saudáveis, felizes e respeitadas, e encontrariam satisfação em devotar-se às suas crianças”.(40)
Tanto a descrição das mulheres por Rousseau, Sofia em particular, como a descrição da maternidade de Lotte, parecem ser parte daquela tentativa. Embora Rousseau se apresente reacionário e conservador, ele parece defender algo de novo para o século XVIII, que assumiria grande importância no Idealismo Romântico, e continuaria valioso no século XIX em muitos países(41).  Além das tarefas da maternidade e dever doméstico, as mulheres têm que ser uma esposa.
O problema de ser mulher é que existe uma dicotomia entre a esposa como objeto de desejo sexual e, ao mesmo tempo, um anjo de virtude intocável. Esta dicotomia, já descrita por Rousseau, torna-se até mais forte durante o último movimento romântico. Uma mulher poderia tanto ser um demônio quanto um anjo(42). Neste primeiro estágio, uma mulher como Sofia teve que ser ambos. De um lado, ela teve que ser a sedutora que é fisicamente atraída pelo homem. Por outro lado, ela teve que ser virtuosa e com uma reputação imaculada como a perfeita mulher/anjo.
Vamos examinar primeiro as mulheres como sedutoras. O poder para seduzir um homem dá à mulher uma grande força:
“A natureza tem dotado a mulher com um poder de estimular as paixões do homem mais do que o poder do homem de satisfazer essas paixões, e assim o tem feito... compeliu-o por sua vez a empenhar-se em agradá-la”.(43)
Quando Emílio conhece Sofia, “o charme do encanto feminino invade seu coração, e ele começa a instilar o veneno com que é intoxicado”.(44)
Do mesmo modo, Lotte inspira desejo em Werther. Embora ele não faça nenhuma reivindicação a ela, ele sente que é quase impossível não “desejar tão amavelmente um objeto como Lotte(45). Lotte parece ter o mesmo poder sobre o homem que Rousseau concedeu a Sofia. Ela deve resistir a qualquer avanço, mas sua resistência é o que atrai os homens mais profundamente. De maneira semelhante, Lotte parece manipular a paixão de Werther. Quando Werther toca Lotte acidentalmente, isto desperta seu desejo por ela. Aos olhos dele, porém, ela é inocente de qualquer encorajamento. Como uma maneira semelhante de dizer não, mas aparentemente encorajando a intimidade, Lotte diz a Werther para parar de beijá-la, mas ao mesmo tempo prossegue. Parece que Rousseau expôs os mesmos princípios acerca das manipulações de Sofia valiam para Lotte.
Contra toda convenção, Rousseau encoraja as práticas de cantar, dançar e tocar piano para mulheres. Sofia aprende todas essas artes quando menina(46). Lotte também adquiriu essas habilidades: quando ela está de mal humor, ela “canta... um par de quadrilhas, saltitando para cima e para baixo no jardim, afastando-se imediatamente”(47). Como Sofia, Lotte também toca piano para exprimir suas emoções, e novamente ela admite que “se algo me aborrece e eu martelo uma quadrilha em meu velho piano, fora de melodia, isso torna novamente tudo certo”(48).
Rousseau não somente aconselha as meninas a que aprendam essas artes para serem capazes de agradar os homens, como encoraja os pais a deixar suas filhas a irem a bailes e eventos semelhantes. Rousseau teme que, se esses prazeres forem negados às meninas, elas, tentarão compensar a falta desses divertimentos durante o casamento. Lotte adora dançar, e ela comparece a um baile com Werther. Ela está animada e feliz nessa diversão, como somente acontecia antes de ela estar casada com Albert. É durante esse baile que Werther mais nota o charme pessoal de Lotte. O modo no qual “os pequenos pés de Sofia pisam ligeiramente, facilmente, e graciosamente”(49) é semelhante aos movimentos de Lotte cheios de “charme... [e] agilidade”(50). Tanto Sofia como Lotte aprendem a ser sedutoras.
Por outro lado, a maior parte da educação delas é ajustada para produzir nelas esposas perfeitas. Para se tornar uma esposa perfeita, Sofia aprendeu as tarefas domésticas, a forma forte de submissão que a faz capaz de aceitar qualquer injustiça de seu marido. Sua educação a faz o perfeito ponto de apoio para Emílio. Sofia espera tornar-se uma esposa perfeita, mas ela também espera encontrar um marido perfeito. Lotte tem sentimentos semelhantes sobre ser esposa como seu primeiro dever, e ter um “bom” marido:
“Ela [Lotte] viu-se agora unida para sempre com o marido cujo amor e lealdade ela sabe,... uma boa esposa poderia encontrar [nele] a felicidade de sua vida...”(51)
Embora essa descrição pareça uma relação perfeita, não se pode esquecer, como Rosenberg aponta, que “as mulheres eram artigos comerciáveis”: as esposas eram consideradas objeto e propriedade(52). De acordo com Rousseau, era do interesse da mulher tornar-se propriedade apreciada, porque só poderia ser cuidada apropriadamente se encontrasse um homem. A necessidade urgente de Sofia de encontrar um marido enfatiza este ponto. Lotte também se considera “propriedade” de Albert(53).
Apesar dessas noções bastante conservadoras sobre o casamento, Rousseau adota um mesmo ideal muito romântico acerca dele. Ele permite a Sofia escolher seu próprio marido, como o pai dela lhe explica:
“Há uma conveniência natural, uma conveniência de uso estabelecido, e uma conveniência que é meramente convencional. Os pais podem decidir pelas duas últimas e os filhos eles mesmos podem decidir pela primeira”(54).
Esta é uma noção romântica de casamento que contraria aquela sustentada antes, em que era dado aos pais o poder absoluto para escolher um marido ou esposa. Isto não dá completa liberdade a Sofia porque a imagem do marido perfeito tem sido cuidadosamente plantada em sua imaginação, mas permite felicidade e amor entre duas pessoas ao invés de dinheiro e poder como razões para uma união.
Lotte também parece ter  escolhido seu próprio marido. Ela descreve Albert como uma “boa pessoa”(55). Quando sua mãe morre, ela dá sua benção a essa união, como Lotte descreve para Werther:
“Albert, você estava no quarto. Ela [a mãe] ouviu os passos de alguém e indagou, e você veio até ela, e então ela olhou para você e eu com o olhar calmo e confortado de quem sabia que nós seríamos felizes, felizes juntos”(56).
Tanto Sofia como Lotte escolhem seus maridos, mas certamente com o consentimento de seus pais. Rousseau é bastante romântico em suas noções sobre o amor. Porém, é interessante notar que ele não prevê um final feliz. Émile termina com o anúncio feliz de que Sofia, agora casada com Emílio, está grávida e que o tutor ajudará com a educação da nova criança. Porém, em seqüência, Les Solitaires, Rousseau descreve como Emílio perde o interesse por sua mulher após a morte da criança, e como Sofia encontra um amante e finalmente morre. Afinal de contas, sua educação e a escolha perfeita, o casamento, não funcionou. O casamento de Lotte também parece ser problemático, já que ela não pode negar sua atração por Werther. Quando ela o vê pela última vez, seu marido Albert nada sabe sobre isto, e ela não lhe fala sobre seus sentimentos e preocupações. Por conseguinte, ninguém impede Werther de seu suicídio e o livro termina com a menção de temor pela vida de Lotte. Esses eventos não pressagiam um futuro muito positivo para o casal. Embora Rousseau postule noções de amor romântico, também vê nele a possibilidade de drama e tragédia. O destino de Lotte prova quão profundamente Rousseau descreveu uma heroína romântica em sua Sofia.
A questão formulada no princípio permanece. Rousseau tem uma atitude ambivalente das idéias românticas. Por um lado, seu herói Emílio é dotado de atributos românticos como bondade natural, individualismo e liberdade. Por outro lado, Rousseau pinta um quadro muito conservador e reacionário de Sofia e das mulheres em geral. Num exame mais profundo, Sofia tem muitas características românticas que a fazem bem parecida com Lotte, uma verdadeira heroína romântica. Se Rousseau é tão reacionário e ao mesmo tempo romântico acerca das mulheres, poderia significar então que o Romantismo, ao menos enquanto se refere às mulheres, sustenta valores reacionários e conservadores? Poderia haver uma diferença entre aquilo que o Romantismo prevê para os homens e as mulheres, em termos de liberdade e individualismo? A partir da literatura do Romantismo e da maior parte do século XIX, eu postulo que ao menos uma forma de idealização romântica das mulheres as tornou prisioneiras, as fez dependentes e as limitou à imagem de anjo ou mãe e esposa perfeitas ? precisamente para conter a potencial ameaça que existe na figura feminina de sedutora ou demônio(57). Muito da literatura americana, francesa e alemã do século XIX ainda contém algumas dessas noções originadas nos movimentos românticos. O caráter doméstico vitoriano enfatizou uma semelhante imagem das mulheres: Effi Briest e Emma Bovary falham precisamente porque elas são românticas de coração, mas não podem se conformar à visão romântica idealizada da condição feminina.
A influência de Rousseau tem sido imensa, e ele continua incitando opiniões no século XX. Alguns aspectos da imagem da mulher ideal são ainda enfatizados do mesmo modo nos dias atuais. As mulheres devem ser boas mães, o casamento é a meta a alcançar, e alguns igualmente sugerem nos anos noventa educar homens e mulheres novamente separados(58). Estamos revertendo à idéia de “esferas separadas”?

The Education of Rousseau’s and Goethe’s Lotte: Could Romanticism Be Reactionary? Ana Isabel Aliaga  Buchenau. University of North Carolina at Chapel Hill. Tradução: Lígia Maria Cardoso. Revisão: Marco Antônio Frangiotti.

Notas:
1 Ver Lilian R. Furst, Romanticism (London: Methuen, 1976). Os Problemas de Definição são Tratados nas pgs. 1-14.
2 Peter Jimack, Rousseau; Émile (London: Grant & Cutler Ltd. 1983) 46.
3 Jimack 49.
4 Jean Jacques Rousseau, Émile (New York: Dutton, 1966) 321.
5 Rousseau 326.
6 Helen Evans Misenheimer, Rousseau on the education of Women (Washington, DC.: UP of America, 1981) 82.
7 Rousseau 332.
8 Rousseau 349.
9 Rousseau 359.
10 Rousseau 333.
11 Rousseau 328.
12 Fenelon havia defendido uma forma muito diferente e mais “liberada” de educação de mulheres, Madame de Maintenon havia secularizado a educação de meninas criando a escola Saint Cyr com um currículo bem diferente daquele que Rousseau pretendia para Sofia, e Madame de Lambert havia igualmente postulado uma forma mais liberada de educação de mulheres. Veja Misenheimer, Rousseau on the Education of Women (Washington, DC.: Up of America, 1981) 47-49.
13 O adjetivo “romântico” é usado neste ensaio como pertencendo ou derivando de Romantismo.
14 Furst 27.
15 Rousseau 359.
16 "Uma certa falta de sensibilidade, uma falta – tome isto como você quiser; que o coração dele [Albert] não bata por compaixão – oh! – um trecho de um livro de amor". Johann Wolfgang von Goethe, The Sufferings of Young Werther and Elective Affinities, transl. Bayard Quincy Morgan (New York: The Continuum Publishing Company, 1987) 74.
17 Rousseau 350.
18 Rousseau 350.
19 Goethe 96.
20 Rousseau 352.
21 Rousseau 367.
22 Rousseau 366.
23 Goethe 107.
24 Goethe 100-101.
25 Rousseau 377.
26 Goethe 32-33.
27 Rousseau 368.
28 Goethe 107.
29 Goethe115.
30 Nancy Senior, "Rousseau's Émile on Motherhood, in the Context of its Time," in Jean Terrasse, ed., Rousseau et l'êducation: êtudes sur l'Émile (Sherbrooke, QuÇbec, Canada: Editions Naaman, 1983) 93.
31 Pretende-se que essas observações sejam aplicadas particularmente às mulheres da elite e classe média.
 
32 Misenheimer 80.
33 Rousseau 357.
34 Rousseau 372.
35 Goethe 27.
36 Rousseau 324.
37 Goethe 59.
38 Goethe 47.
39 Senior 95.
40 Senior 95.
41 Particularmente na América, o culto do caráter doméstico e da maternidade é uma idéia predominante no conceito de mulher no século XIX.
42 Cf. Sandra M. Gilbert and Susan Gubar, The Madwoma n in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (New Haven: Yale UP, 1979). Porém, veja o argumento de  Nina Auerbach's argument in Woman and the Demon: The Life of a Victorian Myth (Cambridge, Mass.: Harvard UP, 1982). Ela argumenta que as duas categorias não são tão distintas quanto se pensa, que a figura de anjo possui tanto poder e que a figura do demônio tenha características angelicais.
43 Rousseau 323.
44 Rousseau 378.
45 Goethe 46.
46 Rousseau 337 and 350.
47 Goethe 37.
48 Goethe 37
49 Rousseau 357.
50 Goethe 30.
51 Goethe 100.
52 Aubrey Rosenberg, "Property, Possession and Enjoyment. Woman as Object, Subject and Project in the Émile," in Jean Terrasse, ed., Rousseau et l'êducation: êtudes sur l'Émile (Sherbrooke, Quebec, Canada: êditions Naaman, 1983) 103.
53 Goethe 97.
54 Rousseau 362.
55 Goethe 31.
56 Goethe 60.
57 "Se...a mulher é idealmente um anjo doméstico...ela continuamente ameaça tornar-se uma apaixonada criatura rebelde, impelida por desejos proibidos”. Alan Richardson, Literature, Education and Romanticism: Reading as Social Practice, 1780-1832 (Cambridge: Cambridge UP, 1994), 207.
58 Na Alemanha, muitos pedagogos indicam que as meninas mais aprenderiam longe de meninos mais agressivos e presunçosos, nas mesmas circunstâncias. Algumas experiências com educação separada estão sendo feitas atualmente. De acordo com Raleigh News and Observer, vários artigos em meses recentes têm apontado para o sucesso da educação separada em ambiente escolar.
 

Emílio, ou Da Educação é uma obra filosófica sobre a natureza do homem, escrita por Jean-Jacques Rousseau  em 1762, que disse “Emílio foi o melhor e mais importante de todas minhas obras,” aborda temas políticos e filosóficos referentes à relação do indivíduo com a sociedade, particularmente explica como o indivíduo pode conservar sua bondade natural (Rousseau sustenta que o homem é bom por natureza), enquanto participa de uma sociedade inevitavelmente corrupta. No Emílio, Rousseau propõe, mediante a descrição do mesmo, um sistema educativo que permita ao “homem natural” convier com essa sociedade corrupta. Rousseau acompanha o tratado de uma história romanceada do jovem Emílio e seu tutor, para ilustrar como se deve educar ao cidadão ideal. No entanto, Emílio não é um guia detalhado, ainda sim inclui alguns conselhos sobre como educar as crianças.Hoje se considera o primeiro tratado sobre filosofía da educação no mundo ocidental.
O texto se divide em cinco “livros”, os três primeiros dedicados à infância de Emílio, o quarto à sua adolescência, e o quinto à educação de Sofia a “mulher ideal” e futura esposa de Emílio, e à vida doméstica e civil deste.
O Emílio foi proibido e queimado em Paris e em Genebra, por causa do controvertido fragmento sobre a “Profissão de fé do vigário Savoiano”; porém, apesar, ou por causa de sua reputação, rapidamente se converteu em um dos livros mais lídos na Europa. Durante a Revolução francesa o Emílio serviu como inspiração do novo sistema educativo nacional.