segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Princípios fundamentais da educação em Rousseau

Aline Sarmento Coura
Universidade  Federal de Campina Grande

Rousseau, um dos mais bem conceituados pensadores do Século XVIII, na sua obra Emílio ou da Educação, propõe um projeto para a formação de um novo homem e de uma nova sociedade, apresentando-nos os princípios gerais para uma educação de qualidade. A sua influência, no campo educacional, deve-se assim a esta obra. Nela, trata da educação de uma criança acompanhada de um preceptor que a auxiliará a ter uma educação conforme a natureza, preservando-a da sociedade corruptora. Pois o autor preconiza uma educação afastada do artificialismo das convenções sociais.
A proposta de Rousseau, de uma educação de acordo com a natureza, foi considerada inovadora e revolucionária, pois ele se opõe a educação do seu tempo e a formação humana em geral proposta pela educação de sua época. Dessa forma, apresenta uma proposta que valoriza a liberdade, bem como o desenvolvimento das faculdades das crianças. Deste modo, preconizando a educação conforme a natureza, Rousseau quer que o homem seja educado para si mesmo. Assim ver-se-á necessidade de se repensar a educação, considerando para tanto uma nova forma de compreender a infância, a adolescência e a fase adulta. A partir disto chega-se aos diferentes modos de educar segundo as diferentes etapas de formação humana, conforme o proposto por Rousseau.
A primeira destas etapas é a infância que, para Rousseau, é o período no qual acontece o desenvolvimento físico do ser humano. Assim sendo, é neste período em que as faculdades naturas do indivíduo humano se desenvolverão, constituindo-se, pois, a sua primeira formação.
A criança precisa de liberdade para viver e aproveitar cada fase da sua vida em seu devido tempo e não ser considerada um adulto em miniatura. Rousseau afasta a possibilidade da criança ser confundida com o adulto, e enfatiza a necessidade dela ser tratada de fato como criança, quando afirma: “amai a infância, favorecei as brincadeiras, seus prazeres, seu amável instinto” (ROUSSEAU, 2004, p.72). Isto por ser a infância um período curto que não volta mais. Faz-se, então, necessário deixar que a criança goze desse tempo valioso, porque, nesta idade, o sorriso está sempre nos lábios e não se deve impor a vontade de um adulto sobre ela, já que a mesma tem maneiras próprias de agir.
Assim, é preciso pensar seriamente no significado da infância, para que se proporcione uma educação cujo processo será determinado pela natureza, dando atenção às diversas fases do seu desenvolvimento. Pois não devemos impor os saberes dos homens à criança; é preciso considerar cada um em seu lugar, ou seja, considerar o homem no homem e a criança na criança, sabendo-se que ambos são diferentes e têm suas próprias características.
Seguindo esta linha de entendimento, compreendemos que a educação é um processo natural e não artificial. Portanto, a educação deve ser efetivada a partir do momento que se respeite o desenvolvimento natural da criança e não forçá-la a aprender coisas de adulto com uma educação bárbara voltada para um futuro incerto, deixando assim de viver o presente. Ao invés disto, dar-se-á mais ênfase a uma educação de acordo com a natureza e que valorize o presente. Isso nos diz Rousseau, quando nos chama a atenção para o seguinte: “Que mania a de um ser tão passageiro como o homem sempre olhar para longe, num futuro que vem tão raramente, e desdenhar o presente de que tem certeza!” (ROUSSEAU, 2004, p.78). Partindo disso, entende-se que o homem deve valorizar o presente e não viver sempre em busca de um futuro incerto, tornando-se tão longe de si mesmo, conduzido por desejos supérfluos, isto é, necessidades imaginárias que farão o homem infeliz, não mantendo ele o equilíbrio entre os seus desejos e suas capacidades de realizá-los.
De acordo com o exposto acima, Rousseau nos diz o seguinte: “É na desproporção entre os nossos desejos e nossas faculdades que consiste a nossa miséria. Um ser sensível cujas faculdades igualassem os desejos seria um ser absolutamente feliz” (Rousseau, 2004, p.74). Pois a felicidade consiste no uso de sua liberdade e será feliz quanto mais puder fazer o que necessita, não adquirindo excesso de desejos sobre suas faculdades. Ou seja, quanto mais o homem permanece perto de sua condição natural mais se distancia dos desejos supérfluos que os torna infeliz, por causar um desequilíbrio entre a potência e a vontade.
É indispensável conservar a criança, ao máximo possível, numa educação de acordo com a natureza e assim deixá-la viver o presente, evitando os vícios e os erros para que, ao chegar aos doze anos, o seu entendimento em relação à razão seja sem preconceitos e sem vícios. Assim o seu caráter se desenvolverá em liberdade, aproveitando cada minuto desse tempo valiosíssimo. Pois, de acordo com Rousseau (2004, p.97) “A primeira educação deve ser previamente negativa. Consiste não em ensinar as virtudes ou a verdade, mas em proteger o coração contra o vício e o espírito contra o erro”. Por isso deve-se preparar a criança desde os primeiros anos, para que seus primeiros olhares sejam impressionados com objetos que lhe convém, e não gerar os erros e vícios. Pois a educação moral deve ser conseqüência natural do desenvolvimento da criança.
É importante ressaltar que as lições devem consistir mais em atos do que em palavras. Não se deve aplicar às crianças o castigo como castigo, mas devemos fazer com que sintam as conseqüências naturais de sua má ação. Diante de tal contexto, Rousseau afirma que “O primeiro de todos os bens não é a autoridade, mas a liberdade. O homem verdadeiramente livre só quer o que pode e faz o que lhe agrada” (ROUSSEAU, 2004, P.81). Portanto, um homem livre é um homem que tem autonomia em suas decisões, e não necessita de outras pessoas para fazer as coisas no seu lugar. Pois a felicidade consiste no uso de sua liberdade, será feliz quanto mais poder fazer o que necessita. E assim aprende pelos seus atos e não porque alguém o obriga a fazer. Com isso, tornará as crianças mais livres e menos dependentes dos adultos. Assim, elas se acostumam desde cedo a pôr sob a dependência seus desejos e suas forças.
É necessário educarmos o homem desde o nascimento, para que lhe seja garantida a preservação de todas suas inclinações naturais, até que construa a sua formação física e moral durante a infância e a adolescência, quando passa a adquirir as qualidades que permitem inserir-se na sociedade, abrindo espaço para a construção da sua cidadania.
A adolescência, conforme Rousseau, é um período de modificações, um novo nascimento que remete o indivíduo a um processo de aprendizagem em direção a autonomia da vida adulta.
No período que vai dos doze aos treze anos, próximo à adolescência, a criança, por não ter todas as suas necessidades desenvolvidas, as suas forças são superiores. Pois, “aos doze ou treze anos, as forças da criança desenvolvem-se bem mais rapidamente do que suas necessidades” (ROUSSEAU, 2004, p.211). Neste período, o progresso da força ultrapassa o das necessidades. Assim, podendo mais do que deseja, será um ser muito forte.
De acordo com Rousseau, a fraqueza do homem decorre da desigualdade existente entre a sua força e seus desejos. Nesse sentido, entende-se que, se diminuirmos os desejos, teremos capacidades suficientes para satisfazer o que nos é necessário, como também seremos felizes. Pois são as necessidades imaginárias que tornam o homem infeliz.
É importante mencionar que as paixões, que dominam e destroem o homem, não provem da natureza; o indivíduo é quem se apropria delas, tornando-se, assim, infeliz, pois a única que nasce com o homem é o amor de si, as outras são modificações. Nesse sentido, Rousseau afirma: “Fiz ver que a única paixão que nasce com o homem, o saber, o amor de si, é uma paixão em si mesma indiferente ao bem e ao mal, que se torna boa ou má a não ser por acidente e segundo as circunstâncias nas quais se desenvolve”. (ROUSSEAU in FORTES, 1989, p. 12). Pensando assim, compreendemos que, na natureza, tudo é correto: o homem é quem modifica tudo. Pois a fonte de nossas paixões é natural; as outras são modificações que se aglutinam a esta fonte natural.
A educação de quinze a vinte anos, ou melhor, a adolescência é o período em que se educa o coração para a vida em comum e para as relações sociais. Neste período, deve-se encontrar meios de satisfazer o indivíduo, colocando-o ao seu alcance o que ele deve aprender para aquisição de sua formação moral, o que preparará para a vida adulta. Pois é o período de preparar o indivíduo moralmente para as suas relações com a humanidade. Partindo disso, é fundamental mencionar a importância do princípio da utilidade, conforme nos diz o próprio Rousseau (2004, p. 234):
Assim que chegamos a dar ao nosso aluno uma idéia da palavra útil, temos mais um grande meio para educá-lo, pois essa palavra o impressiona muito, dado que tem para ele apenas um sentido relativo à sua idade e que ele vê claramente a sua relação com o seu bem-estar atual.
Pensando assim, cabe ao preceptor colocar ao alcance do aluno o que ele deve aprender e fornecer meios de satisfazê-lo; como também é papel do educando procurar desejar e encontrar o que lhe é útil e conseguir conhecer a si mesmo para compreender em que consiste o seu bem-estar.
O ser humano deve formar sua personalidade de forma a ser um homem natural que se satisfaz, tendo assim opinião própria e buscando se conhecer cada vez mais e não satisfazer apenas as outras pessoas. Pois o período que constitui a adolescência é um estado turbulento de mudanças.
A adolescência é o período em que surgem as primeiras manifestações da consciência e dos primeiros sentimentos de amor e ódio, como também é o período da educação religiosa, que, segundo Rousseau, não deve ser imposta ao individuo, isto é, não deve ser imposta a religião que ele deve seguir, mas o que se deve fazer é colocá-lo em condições de escolher a sua própria religião e que, na sua escolha, seja conduzido pelo melhor emprego da razão. Assim terá autonomia para escolher, princípio fundamental para que, ao chegar à fase adulta, possa fazer as suas próprias escolhas. 
A última etapa da formação humana é a fase adulta. Nesta, segundo Rousseau, se efetiva a educação do ser moral e, na qual, se dá o direcionamento do indivíduo à vida sócio e política do Estado.
Assim, na fase adulta, a educação está voltada mais para a formação intelectual, estética e moral, como também é importante ter conservado os bons hábitos da infância. A esse respeito, Rousseau (2004, p. 636) diz o seguinte: “Se quiserdes prolongar pela vida inteira o feito de uma boa educação, conservai ao longo da juventude os bons hábitos da infância, e, quando nosso aluno for o que deve ser, fazei com que seja o mesmo em todos os tempos; eis a ultima perfeição que vos está dar à vossa obra”. Portanto, para se alcançar uma boa educação, faz-se necessário preservar os hábitos da infância, pois não é porque se tornou adulto que excluirá estes hábitos de quando criança; ao contrário, deve-se mantê-los.
Para Rousseau, é também na fase adulta que se enfatizam as diferenças entre o homem e a mulher. Estas diferenças, segundo ele,  pertencem ao sexo. Pois considera que, de acordo com a lei da natureza, a mulher foi feita para agradar ao homem e que ela deve ser conforme a constituição de sua espécie e de seu sexo, ou seja, deve usufruir os seus direitos e não se apossar dos direitos dos homens. A esse respeito, Rousseau afirma que “A mulher vale mais como mulher e menos como homem; em toda parte onde faz valer seus direitos, leva vantagem, em toda parte onde quer usurpar os nossos, permanece inferior a nós”. (ROUSSEAU, 2004, p. 525). Com isso, compreendemos que a mulher deve cultivar suas qualidades, pois terá mais vantagens do que se apropriar das qualidades dos homens, como também ocupará o seu lugar na ordem física e moral.
Mas, independentemente do sexo, é importante desenvolver bem a razão para que o indivíduo possa ter suas próprias opiniões, decidindo por si mesmo o que é melhor para si próprio, pois, até a idade em que a razão não está formada, o que é bom ou mal é decidido pelas pessoas que o rodeiam. Por isso, faz-se necessário proporcionar uma educação que, o ser humano, ao ser educado intelectualmente, não seja persuadido pelas pessoas que querem impor à forma dele se comportar. Com isso observamos a importância de educar o homem conforme a natureza, para que ele tenha a educação que lhe convém.
Assim, o indivíduo, nesta fase adulta, deve estar preparado para cumprir as suas funções de homem, ou melhor, ser capaz de viver em liberdade, sem que fique dependente dos homens, comprometendo sua felicidade.

Mulheres: tempos diferentes, discursos iguais 

– A luta continua por uma vida mais justa e digna para todas/todos

 
“Os deuses criaram a mulher para as funções domésticas, o homem para todas as outras. Os Deuses a puseram nos serviços caseiros, porque elas suportam menos bem o frio, o calor e a guerra. As mulheres que ficam em casa são honestas e as que vagueiam pelas ruas são desonestas”. (Xenofonte: 427 –355 a.C.)
 
Neste mês de março comemora-se o Dia Internacional das Mulheres e com este texto busca-se fazer uma breve reflexão sobre os discursos que circulavam (circulam) na nossa sociedade sobre elas, desde o período de 400 a.C. até os dias atuais.
Platão, um filósofo que viveu entre 427-347 a. C., preocupou-se em explicar as questões da origem do homen. “Entre os homens que receberam a existência, todos os que se mostraram cobardes e passaram a sua vida a praticar o mal foram, conforme toda a verossimilhança, transformados em mulheres na segunda encarnação, (Platão, 1986:154)”. Segundo este filósofo, os homens que se enveredaram para caminhos errantes que, os distanciavam da constituição de uma ética de vida e não conseguiam o acesso ao mundo do conhecimento intelectual, teriam uma segunda chance sendo mulheres. Enfim, este autor considerava as mulheres como a reencarnação destes homens que fracassaram na sua primeira vida. É preciso considerar que seu pensamento é coerente à estrutura social das polis gregas cuja, base era patriarcal e práticas homoeróticas entre o sexo masculino eram comuns e consideradas “normais”.[1] Na chamada democracia de Atenas, demiurgos (estrangeiros), mulheres e escravos, a maioria da população, não votavam nem tinham direito de participar das decisões públicas.
A mulher ocidental, durante longos séculos, foi proibida de trabalhar, estudar, sair à rua sem a anuência do seu dono, pai ou marido. Ela era tratada como propriedade, objeto, em virtude dos discursos opressionistas que buscavam, através das diferenças biológicas entre homens e mulheres, explicar as desigualdades de direitos.
No livro Escola de Mulheres, do século XVII, o diálogo entre Arnolfo e Crisaldo retrata como deveria ser a mulher ideal, (Molière,1996:10).
Arnolfo – Caso com uma tola para não bancar o tolo.(... ) Uma mulher esperta é mau presságio; eu sei o quanto custou a alguns casarem com mulheres cheias de talentos; me caso com uma intelectual, (...) e fico apenas sendo marido de madame.(... ) Mulher que escreve sabe mais do que é preciso. Pretendo que a minha seja bastante opaca para não saber nem o que é uma rima. (...) Em suma, desejo uma mulher de extrema ignorância. Que já seja demais ela saber rezar, me amar, cozer, bordar!
Neste diálogo, constata-se que o homem possuía receio em casar-se com uma mulher que soubesse mais ou tanto quanto ele. É possível constatar ainda, num diálogo entre Arnolfo e a sua futura esposa Inês, como a mulher era representada nos discursos da época, quais eram as suas obrigações e que posição ela ocupava no casamento:
Arnolfo: vou me casar com você Inês; cem vezes por dia você deverá agradecer esta honra bendita (...). Seu sexo nasceu para dependência. A onipotência é para quem tem barba! (Molière,1996:41).
O filósofo Rousseau, que viveu entre 1712 até 1778, dizia que a mulher só deveria cultivar a razão, se essa faculdade pudesse lhe garantir o cumprimento de seus deveres considerados como “naturais”, ou seja, obedecer e ser fiel ao marido e cuidar dos filhos e da casa. Segundo esse autor, a mulher que ousasse se dedicar à vida intelectual deveria permanecer solteira. Ela iria contra a sua natureza, contra os seus deveres de esposa, como podemos observar, (ROUSSEAU, 1968: 490).
Mas eu ainda prefiro cem vezes mais uma jovem simples e grosseiramente educada, a uma jovem culta e enfatuada, que viesse estabelecer no lar um tribunal de literatura de que seria presidenta. Todas essas mulheres de grandes talentos aos tolos impressionam. Toda jovem letrada permanecerá solteira a vida inteira, em só havendo homens sensatos na terra.
Um outro exemplo de opressão feminina aparece com evidência por volta de 1920, no livro O status intelectual da mulher, de Virgínia Woolf, em que a escritora inglesa mostra como as mulheres são impedidas de se desenvolverem intelectualmente na sociedade, (WOOLF, 1997: 36).
É preciso que as mulheres tenham liberdade de experimentar, que possam ser diferentes dos homens, sem medo, e que expressem estas diferenças livremente; que toda a atividade intelectual seja bastante estimulada de forma que sempre haja um núcleo de mulheres que pensem, inventem, imaginem e criem tão livremente quanto aos homens, e com tão pouco medo do ridículo ou de condescendência. Estas condições, a meu ver de grande importância, são impedidas (...), pois um homem ainda tem mais facilidade que as mulheres para tornar seus pontos de vista conhecidos e respeitados.
Discursos sobre a necessidade de manter as mulheres na ignorância circularam durante longos períodos. Esses discursos dificultavam à conquista dos direitos das mulheres à educação e à profissionalização. Acreditava-se que, quanto menos as mulheres soubessem, melhores esposas seriam. Tais discursos sobre as mulheres, sobre como elas deveriam se preparar para serem boas esposas, mães, implicavam na convenção de que não havia, para isso, a necessidade de muitos estudos.
Se o marido possuísse boas condições financeiras, a mulher não necessitava trabalhar, ter uma profissão para contribuir no orçamento familiar. Ainda hoje, o marido é considerado por alguns como o responsável pelo sustento do lar. Enfim, tempos diferentes e discursos iguais sobre a mulher. Segundo (COLLING, 2000: 49):
O discurso da inferioridade feminina estava tão arraigado na estrutura da vida das mulheres e dos homens que poucos o questionaram. A maioria das mulheres acomodavam-se na instituição familiar dominada pelos homens, que lhe garantiam subsistência, lhe ofereciam um companheiro para toda a vida e forneciam um sentimento de proteção frente ao cotidiano da vida. Vivendo para seus maridos, esquecidas, esqueciam de pensar sobre si mesmas.
Os discursos retratavam as mulheres como seres imperfeitos por natureza, seres inferiores aos homens e que, naturalmente, estariam destinadas a serem submissa a eles. A natureza feminina era considerada desde sempre como algo dado, mas segundo (HÉRITIER, 1996:282), “não existe instituição social que se baseie exclusivamente na natureza. Todas são um efeito da arte, da invenção dos grupos, nos limites, certamente, do fato biológico e natural”.
As ideologias positivistas e higienistas também preocupavam-se em manter a mulher no espaço doméstico e impor-lhe regras de conduta que regulavam seu comportamento, constituindo-a, assim, na esposa perfeita, submissa ao marido e, depois, aos filhos homens.
A mulher, até 1840, era considerada como “boneca”, “criança mimada”. Mais tarde, ela conquistou a posição de “pedestal”, passando a ocupar outros espaços além da cozinha. Com a passagem do arquétipo de “boneca”, para “anjo”, “rainha do lar”[2], a mulher começa a ser tratada com mais respeito e com direito à educação, para cumprir adequadamente com as obrigações de sua nova posição. Mesmo assim, a educação feminina ainda visava à formação da esposa agradável e da mãe competente.
Segundo (PERROT, 1988:186), “o século XIX levou a divisão das tarefas e a segregação sexual dos espaços ao seu ponto mais alto. Seu racionalismo procurou definir estritamente o lugar de cada um”. À mulher era delegado o espaço da casa, da maternidade e do magistério. O homem assumia cargos de poder, como a política, a medicina etc. Nesse período, os homens ainda eram ensinados a olhar as suas mães e esposas como outras “Marias”, isto é, como “santas”.
Com o processo de urbanização e industrialização e a emergência de uma camada média detentora de uma cultura escolarizada, ampliaram-se as fronteiras para a profissionalização das mulheres, ensejando mudanças acerca do que a sociedade pensava sobre o papel destinado a elas. Essas múltiplas transformações sócio-econômicas ocorridas nos últimos séculos alargaram de forma notável a visibilidade da mulher. O aumento dos padrões industriais do mundo contemporâneo criou as condições propícias para a sua inserção no mundo do trabalho.
Passaram-se milênios, séculos, décadas desde o período da Antigüidade grega. Muitas mudanças, conquistas, rupturas aconteceram na sociedade, na vida das mulheres, durante esse longo período. Mas, ainda há concepções, há discursos que consideram a mulher como um ser inferior. Um fator que possibilita pensar nesta direção, é o alarmante índice de violência[3] contra as mulheres, principalmente no ambiente doméstico. Segundo os dados da ONU, em todo o mundo, pelo menos uma a cada três mulheres já foi espancada, coagida ao sexo ou sofreu alguma forma de discriminação durante a vida. Um outro fator, é que muitas mulheres ainda recebem um salário inferior em comparação aos homens que, desempenham a mesma função.
Neste mês de março, em especial, são realizadas palestras, conferências, protestos, demonstrações de luta por uma vida mais digna para todos os sexos, em vários países. E que estas manifestações, sirvam para fomentar a discussão e a conscientização de que, as políticas públicas são necessárias para a redução da desigualdade, da discriminação, da violência e da violação dos direitos humanos.

Bibliografia:
COLLING, Ana Maria. A construção da cidadania da Mulher Brasileira: a questão da igualdade e da diferença. PUC - RS. Porto Alegre, 2000, p. 49. (Tese de doutorado)
HÉRITIER, Françoise. Masculino/Femenino. El pensamiento de la diferencia. Barcelona: Ariel, 1996, p. 282.
Lei Maria da Penha: 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm .
MOLIÈRE. Escola de mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1996, p.10.
PERROT,  Michelle. Os excluídos da história: operários, mulheres e prisioneiros. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988, p.186.
PLATÃO. Diálogos: Timeu, Critias, o Segundo Alcebíades, Hipias Menor. Belém: UPPA/GEU, 1986, p. 154..
ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio ou da Educação. São Paulo: Difusão Européia do Livro,  1968, p. 490.
WOOLF, Virgínia. Kew gardens; O status intelectual da mulher; Um toque feminino na ficção; Profissões para mulheres. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1997, p.36.
__________
[1] Talvez a exceção seria Esparta, menos por causa do reconhecimento da igualdade de direitos entre os gêneros e mais em função de sua característica eminentemente militar. As espartanas podiam participar da vida pública em praticamente todas as esferas, inclusive no exército e na política.
[2] Rousseau, no seu Livro Quinto, em que aborda sobre Sofia ou a Mulher, inaugura o discurso da mulher como “anjo do lar”, “santa” descrevendo como deveria ser a relação entre o homem e a mulher, (ROUSSEAU, 1968:432), e WOOLF, aborda que a mulher precisa matar o “anjo do lar” para conquistar outros espaços, (WOOLF, 1997: 43).
[3] São formas de violência doméstica e familiar contra a mulher: a violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial, segundo a Lei Maria da Penha - 11.340/2006 (LEI ORDINÁRIA) 07/08/2006. http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2004-2006/2006/Lei/L11340.htm

domingo, 30 de janeiro de 2011

Emiliando Sofia

Letra da música. Paródia de Pato Pateta de Toquinho.

Lá vem emílio vivendo para brincar
E a sofia indo atrás a invejar.

Rousseau falava da liberdade
Como igualitária mas não é verdade.
O machismo impera ainda todo dia
E a sociedade só julga sofia.

E a religião, é certa?
Não, não
A consiência domina a razão.
Emílio deve ser livre pra escolha
Sofia deve viver numa bolha.

(Na bolha da religião, da submissão e da falta de razão)

Lá vem emílio, 15 anos a brincar
E a sofia ainda atrás a invejar...

Resumo da obra - "EMÍLIO OU DA EDUCAÇÃO"

Para demonstrar toda a sua teoria ele escreve um livro "Emílio ou o da educação" em que cria um aluno imaginário, sendo ele o Emílio, e no decorrer dos capítulos mostra como uma criança deveria ser educada.

Em sua teoria Rousseau alega que a criança deve ser criada no campo, distante das cidades para que assim ela não seja corrompida pelos vícios das mesmas. Ele afirma que a curiosidade e/ou desejo de aprender deve surgir da criança e não de seu tutor e pais, ou seja, ela demonstra qual o momento certo dela aprender determinadas coisas, não é a toa que Emílio, seu personagem, só sente vontade de aprender a ler e a escrever entre os 12 - 15 anos de idade. Emílio passa pelo seguinte processo de formação:

2 - 12 anos de idade : Idade da Natureza - vida no campo para se desenvolver: Educação Moral, a Educação do Corpo e a Educação Sensorial.
12 - 15 anos de idade : Idade da Força - desenvolve:
Educação Intelectual e a Educação Manual e Social.
15 - 20 anos de idade : Idade  da Razão e das Paixões - desenvolve:    Educação do ser social, a Educação Religiosa e Retomada Educação Moral
20 - 25 anos de idade : Idade da Sabedoria e do casamento.

A função do professor / tutor durante é a infância da criança é impedir que a mesma perverta o seu pensamento e fazer de tudo de maneira natural. Rousseau considera o período da infância o "sono" da razão, sendo que a razão só vira aparecer na fase da puberdade e na fase adulta. Apesar de aprender alguns princípios relacionados à razão durante este período a criança não faz o uso da mesma.

Contudo, Rousseau visava à formação do homem, e não somente do ser cidadão para conviver na sociedade capitalista como ocorre nos dias atuais, com isto uma pergunta surge é por este motivo então que a educação brasileira encontra-se defasada, isto esta se dando por conta dos objetivos que se quer atingir? Este pode ser um, dos diversos motivos para este problema, porém deve-se também levar em consideração a falta de investimento financeiro por conta do governo, o desinteresse por conta de alunos e professores, e diversos outros.

O Emílio de Rousseau

Paul Arbousse-Baside e Lourival Gomes Machado
O Emílio é um ensaio pedagógico sob a forma de romance e nele Rousseau procura traçar as linhas gerais que deveriam ser seguidas com o objetivo de fazer da criança um adulto bom. Mais exatamente, trata dos princípios para evitar que a criança se torne má, já que o pressuposto básico do autor é a crença na bondade natural do homem. Outro pressuposto de seu pensamento consiste em atribuir à civilização a responsabilidade pela origem do mal. Conseqüentemente, os objetivos da educação, para Rousseau, comportam dois aspectos: o desenvolvimento das potencialidades naturais da criança e seu afastamento dos males sociais.
A educação deve ser progressiva, de tal forma que cada estágio do processo pedagógico seja adaptado às necessidades individuais do desenvolvimento. A primeira etapa deve ser inteiramente dedicada ao aperfeiçoamento dos órgãos dos sentidos, pois as necessidades iniciais da criança são principalmente físicas. Incapaz de abstrações, o educando deve ser orientado no sentido do conhecimento do mundo através do contato com as próprias coisas: os livros só podem fazer mal, com exceção do Robinson Crusoe, que relata as experiências de um homem livre, em contato com a natureza.
Liberta da tirania das opiniões humanas, a criança, por si mesma, e sem nenhum esforço especial, identifica-se com as necessidades de sua vida imediata e torna-se auto-suficiente. Vivendo fora do tempo, anda precisando das coisas artificiais e não encontrando qualquer desproporção entre desejo e capacidade, vontade e poder, sua existência vê-se livre de toda ansiedade com relação ao futuro e não é atormentada pelas preocupações que fazem o homem adulto civilizado viver fora de si mesmo.
É necessário, contudo, prepará-la para o futuro. Isso porque ela tem uma enorme potencialidade, não aproveitada imediatamente. A tarefa do educador consiste em reter pura e intacta essa energia até o momento propício. Nesse sentido, é particularmente importante evitar a excitação precoce da imaginação, porque esta pode tornar-se uma fonte de infelicidade futura. Outros cuidados devem ser tomados com o mesmo objetivo e todos eles podem ser alcançados ensinando-se a lição da utilidade das coisas, ou seja, desenvolvendo-se as faculdades da criança apenas naquilo que possa depois ser-lhe útil.
Até aqui, o processo educativo preconizado por Rousseau é negativo, limitando-se àquilo que não deve ser feito. A educação positiva deve iniciar-se quando a criança adquire consciência de suas relações com os semelhantes. Passa-se, assim, do terreno da pedagogia propriamente dita aos domínios da teoria da sociedade e da organização política.
in Os Pensadores: Rousseau, São Paulo: Ed. Abril, 1978, introd. pgs. XVII-XVIII.
Jean-Jacques Rousseau foi um importante filósofo, teórico político e escritor suíço. Nasceu em 28 de junho de 1712 na cidade de Genebra (Suíça) e morreu em 2 de julho de 1778 em Ermenoville (França). É considerado um dos principais filósofos do iluminismo, sendo que suas idéias influenciaram a Revolução Francesa (1789).
Rousseau não conheceu a mãe, pois ela morreu no momento do parto. Foi criado pelo pai, um relojoeiro, até os 10 anos de idade. Em 1722, outra tragédia familiar acontece na vida de Rousseau, a morte do pai. Na adolescência foi estudar numa rígida escola religiosa. Nesta época estudou muito e desenvolveu grande interesse pela leitura e música.
No final da adolescência foi morar em Paris e, na fase adulta, começou a ter contatos com a elite intelectual da cidade. Foi convidado por Diderot para escrever alguns verbetes para a Enciclopédia.

No ano de 1762, Rousseau começou a ser perseguido na França, pois suas obras foram consideradas uma afronta aos costumes morais e religiosos. Refugiou-se na cidade suíça de Neuchâtel. Em 1765, foi morar na Inglaterra a convide do filósofo David Hume.

De volta à França, Rousseau casou-se com Thérèse Levasseur, no ano de 1767.

Escreveu, além de estudos políticos, romances e ensaios sobre educação, religião e literatura. Sua obra principal é Do Contrato Social. Nesta obra, defende a idéia de que o ser humano nasce bom, porém a sociedade o conduz a degeneração. Afirma também que a sociedade funciona como um pacto social, onde os indivíduos, organizados em sociedade, concedem alguns direitos ao Estado em troca de proteção e organização.

Obras Principais:
- Discurso Sobre as Ciências e as Artes
- Discurso Sobre a Origem da Desigualdade Entre os Homens
- Do Contrato Social
- Emílio, ou da Educação- Os Devaneios de um Caminhante Solitário